31 de jul. de 2014

O FUTEBOL FORA DO GRAMADO, DURANTE O GOVÊRNO MILITAR.

Ainda em clima de Copa do Mundo não poderíamos deixar de escrever sobre o futebol verdadeira paixão nacional, entretanto não vamos falar da bola rolando nos bonitos gramados das novas arenas, construídas para abrigar os jogos da COPA/14 e sim dos bastidores não muito belos de nosso esporte preferido.
Temos participado de eventos onde está sendo discutida a interferência dos militares no esporte, durante o período ditatorial de 64/85 e surgem casos verdadeiramente absurdos que não queremos mais ver repetido, em hipótese alguma.  O então jovem Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho era um verdadeiro craque do Botafogo carioca e resolveu deixar a barba crescer, sua atitude levantou a ira do treinador Mario Jorge Lobo Zagallo que declarou que jogador seu não usava barba, que em sua opinião era símbolo dos terroristas e subversivos. Polêmica formada, Afonsinho não tirou a barba e adentrou a Justiça contra o clube, alegando estar sendo impedido de exercer sua profissão e acabou sendo o primeiro jogador brasileiro a conquistar o passe livre, via judicial. Todavia, ficou marcado para todo o sempre, como sendo um homem de esquerda sofrendo acusações das mais variadas de possíveis ações políticas contra os militares, dentre elas a de ter alugado o imóvel utilizado para o cativeiro do embaixador americano em 1969.
Um dos casos mais absurdos foi o de Fernando Antunes Coimbra, o Nando, que em 1963 fez concurso para ser professor do Plano Nacional de Alfabetização – PNA -, criado pelo educador Paulo Freire. Passou e começou a lecionar, alfabetizando adultos e logo veio o Golpe Militar de 1º de Abril de 1964, sendo que um dos primeiros atos dos militares golpistas foi o encerramento das atividades do PNA, fichando seus professores e supervisores como elementos subversivos nos cadastros dos órgãos repressivos. Nando, que tinha o irmão Antunes fazendo sucesso no América e posteriormente no Fluminense, resolveu tentar a sorte no futebol. Contratado pelo extinto Santos de Vitória (ES), disputou um excelente campeonato até que ocorreu a troca de técnico, assumindo o comando da equipe um capitão do exercito, logo em seguida teve seu contrato rescindido, sem maiores explicações, com o presidente do clube limitando-se a dizer que a situação do país era difícil. Nando, para aumentar a ira dos militares, ao tomar conhecimento de que sua prima Cecília Coimbra e seu marido José Novaes haviam sido presos pelo DOI-CODI carioca e que sua tia estava passando mal, resolveu levar um médico amigo para examiná-la. Quando estavam no apartamento, a polícia voltou e prendeu todos os presentes, levando-os igualmente para o famigerado órgão de repressão, poupando apenas a mãe de Cecília e uma criança. Antes, usando o carro do irmão  Eduardo Antunes Coimbra, o Edu, havia saído com os livros da biblioteca da prima para esconder em lugar seguro. Edu nesta época fazia sucesso no futebol, atuando pelo América carioca. A perseguição não se restringiu a Nando e sua irmã, Maria José, por serem professores do PNA e acabou-se estendendo para Edu, artilheiro do então Torneio Roberto Gomes Pedroza e que acabou não indo para a Copa de 70, em virtude das atividades políticas dos irmãos e primos. O lendário João Saldanha, certa vez irritado, em um programa de entrevistas, declarou que não convocou Edu para as eliminatórias de 69 e para a preparação de 70, pelo fato do mesmo e sua família possuírem restrições políticas por parte dos militares. Saldanha foi retirado do comando de nossa seleção, pouco menos de três meses antes do início da Copa, por não querer convocar Dario Maravilha, o preferido do general Emilio Garrastazu Médici, acabando sendo substituído pelo servil Zagallo que fez a vontade do ditador, convocando seu ídolo.
Em 1971, o Brasil disputou com sua seleção amadora o pré-olímpico em Bogotá na Colômbia, tendo garantido vaga nas olimpíadas, de 1972, na Alemanha, com vitória de um a zero contra a Argentina, gol do então jovem Zico, irmão mais novo de Nando. Nome certo para as Olimpíadas, Zico acabou ficando de fora e segundo Antoninho, o técnico da nossa seleção olímpica, o então presidente da CBD, hoje CBF, Joao Havelange exigiu que ele apresentasse uma relação dos possíveis atletas a serem convocados, sendo que depois de alguns dias a relação foi devolvida ao treinador, com o nome de Zico suprimido, fato este que quase levou o Galinho de Quintino a encerrar precocemente sua carreira. Coisas do futebol, estranhas e absurdas que ocorrem nos bastidores, antes da bola rolar nos gramados, para alegria ou tristeza dos torcedores.
José Reinaldo de Lima , o Reinaldo do Atlético Mineiro e da seleção de 1978, não era bem visto pelos militares por comemorar os seus gols com o punho esquerdo levantado e principalmente por externar suas opiniões, contrárias aos interesses dos golpistas. Sua declarações favoráveis a anistia política e as eleições diretas para Presidente da República e Governadores  o colocaram no alvo de mira dos ditadores, que foram obrigados a vê-lo comemorando seus gols, em campos argentinos, com o punho esquerdo levantado.
Poderíamos falar também de Paquetá jogador do Vasco que abandonou a carreira para treinar guerrilha do Araguaia, enquanto militante do PCdoB e de Ademir da Guia, o bailarino e maestro do Palmeiras, que poucas chances teve na seleção brasileira, talvez pelo fato de seu pai, Domingos da Guia, o Divino ter organizado um jogo de futebol no Pacaembu com a finalidade de arrecadar recursos para o PCB, quando de sua legalização nos anos 40.

Estes casos de perseguição política, durante os hoje romanticamente chamados de “anos de chumbo”, muitas vezes com os perseguidos sendo acusados de praticarem “crimes de opinião”, levam-nos a refletir sobre a necessidade de lutarmos sempre pela manutenção do regime democrático. 

30 de jul. de 2014

DE ALCAGUETA À CARTOLA DE FUTEBOL!

José Maria Marin, atual presidente da CBF, está a muito tempo no meio politico, tendo sido deputado e governador de São Paulo em 1982, substituindo Paulo Maluf que se afastou para disputar uma cadeira de deputado federal e eleito, conquistar a sonhada imunidade parlamentar para retardar as ações judiciais contra si, decorrentes de suas insanas medidas no comando de nosso estado. Anteriormente, em meados da década de 70, Marin havia na qualidade de deputado estadual da ARENA, cobrado da Tribuna da Assembleia Legislativa de São Paulo, providencias dos órgãos de repressão política e por parte do delegado Sergio Fleury contra os comunistas, que segundo o deputado ocupavam espaços na TV Cultura. De tanto denunciar os jornalistas comunistas, a polícia politica da ditadura prendeu diversos e o resultado todo mundo sabe. Wladimir Herzog, o Wlado, não resistiu a tortura e morreu, com a repressão tentando de forma desesperada, maquiar as razões de sua morte e tentando vender para a opinião publica a ideia de que Wlado havia se suicidado. Aliás, faço um parênteses para recomendar a leitura do livro “ As duas mortes de Wlado” de autoria do companheiro e irmão Audálio Dantas, o melhor livro publicado até hoje sobre este triste episodio. Depois de ser governador, Marin continuou a disputar cargos públicos e sendo derrotado na maioria das vezes, fato este que o levou a buscar novos ares, escolhendo ser cartola de futebol. Acabou sendo um dos vices de Ricardo Teixeira e na renúncia deste, acabou assumindo a presidência da CBF, pelo fato de ser o mais idoso entre os vice-presidentes da entidade que comanda o futebol brasileiro. E na CBF, em cujo comando permanece até Abril do próximo ano tem dado as cartas, como se fosse o dono do futebol brasileiro. E o Pais do Futebol assiste atônito as suas estapafúrdias decisões, demonstrando total distanciamento daquilo que o apaixonado torcedor brasileiro pensa e quer. Primeiro paga ao ex-presidente, Ricardo Teixeira a módica importância de R$ 120.000,00 reais mensais, para que este diretamente dos EUA, preste assessoria a entidade que presidiu por longos anos, em uma verdadeira farra do boi com o dinheiro do futebol e agora, contrata Dunga e Gilmar Rinaldi para comandarem o futebol brasileiro. Dunga com a missão clara de criar casos com a imprensa, buscando tirar o cartola-alcagueta do cenário, tentando desta forma desviar a atenção e mais uma vez impedir que o Poder Público , por meio do Congresso Nacional, venha a investigar as maracutaias da CBF, que está com os cofres cheios, afinal, só pelo vexatório quarto lugar na COPA 2014 recebeu a bagatela de US$ 20 milhões.

Ora, muito se fala nos dias atuais, da exploração da mão de obra infantil e vemos os empresários contratando crianças que despontam como craques de futebol, aprisionando-os por toda uma possível carreira e isto com concordância dos pais. Ora, estes empresários não estariam explorando a mão de obra infantil? Digo isto, pois o coordenador de seleções Gilmar Rinaldi é empresário de futebol e nem se a “velhinha de Taubaté”, personagem de Luis Fernando Verissimo fosse viva, acreditaria que o mesmo abandonou a rendosa carreira para trabalhar na CBF. Ultimamente, por nossa participação no livro Futebol & Ditadura, editado pelo Centro Cultural do Ceará Sporting Clube, temos participado de muitas atividades ao lado de jogadores que fizeram sucesso no passado e todos ele, sem exceção, são ásperos críticos dos tais empresários que hoje dominam os clubes brasileiros, desde a base até o profissional. A CBF gasta verdadeira fortuna para manter sua estrutura, inclusive com pagamento a seus cartolas, e a opinião pública nada sabe sobre sua contabilidade. A movimentação financeira desta entidade é um dos segredos mais bem guardados deste pais. Quando o ex-jogador Zico, o Galinho de Quintino, propôs que a CBF criasse um fundo para assistir aos ex-atletas em dificuldades financeiras, Marin e seus comparsas de direção da CBF fazem de conta que são surdos e cegos, nem se dando ao trabalho de comentar a sugestão. Gastar dinheiro com ex-atletas, não é o desejo deste misto de cartola com alcagueta, que hoje, prepara a sua sucessão, para que em Abril do próximo ano, o tal de Del Nero continue a sua nefasta administração do futebol brasileiro.

Que a CBF deixe de ser o feudo de políticos frustrados é o nosso sonho. Tão utópico quanto ver o socialismo implantado em nossa Pátria, entretanto, ninguém pode nos proibir de sonhar. Queiram ou não, continuaremos a sonhar com um futebol brilhante de nossos compatriotas, recheado de gols e conquistas, sem a presença de empresários e de cartolas, que buscam somente as benesses pessoais.