3 de set. de 2008

O caminhante que não podia andar

Gilberto Maringoni[1]

O último dia 24 de agosto marcou o centenário de nascimento de Alberto de Souza. O advogado Arthur Monteiro Neto, num belo texto neste jornal, não deixou a data passar em brancas nuvens.
Nos tempos em que a palavra “herói” encontra-se tão banalizada, que até os usineiros da cana – versão moderna dos antigos senhores de engenho – merecem este qualificativo, é bom dizer as coisas como deveriam ser. Alberto de Souza nasceu pobre, morreu pobre e quase desconhecido está. Mas é um dos poucos brasileiros do século passado em quem a ligação com esta palavra não pareceria falsa ou peça de retórica. Ele foi, durante toda a vida, um Herói com agá maiúsculo, muito embora dispensasse tais elogios com meia dúzia de impropérios.
Seu Alberto era magro, alto e tinha os cabelos lisos em permanente desalinho. Um olhar esperto denotava uma inteligência ímpar. Viveu por mais de meio século em uma casinha de madeira, na Vila Industrial, então um bairro afastado.
Era sapateiro. Seu ofício era o de fazer e consertar aquilo que usamos para caminhar. Seu Alberto, quando jovem, caminhou mais do que a maioria das pessoas. Percorreu a pé cerca de 24 mil quilômetros pelo interior do Brasil. Em dois anos andou por uma vida. Seu Alberto integrou a lendária Coluna Prestes, uma campanha militar para mudar o país. Perseguida pelo exército e por jagunços de fazendeiros, jamais foi derrotada militarmente. Eram tempos muito duros os do governo ditatorial de Arthur Bernardes, entre 1925 e 1927.
Mas aos 27 anos de idade ele deixou de andar. Dali em diante, passou a locomover-se com extrema agilidade, com o auxílio de duas cadeiras de palhinha velhas, passando de uma para outra. Inquieto e inconformado, ele reinventou um modo de locomoção.
Sua história faz parte da brutalidade com que as classes dominantes brasileiras sempre trataram o povo.
Alberto de Souza era um caipira de sangue quente. Nascido em Itapira, cresceu, viveu e envelheceu rebelde. Não era um rebelde das palavras, mas um missionário da ação. Mal completara 16 anos e envolveu-se na Revolução Paulista de 1924. Pouco se fala deste episódio, que teve marcada participação dos setores empobrecidos da população. Ali o jovem interiorano tomou gosto pela luta. Conheceu o tenente João Cabanas e engajou-se em na coluna de soldados que se embrenhou pelo interior paulista e chegou até o Paraná.
Foi assim que travou contato com um capitão de artilharia franzino e despachado. Era Luiz Carlos Prestes, que buscava voluntários para sua jornada.
Quando se tornou comunista, ainda na Bolívia, no final dos anos 1920, seu Alberto faria de sua opção política um molde para sua existência. Não pensou duas vezes ao se engajar nas articulações do levante de 1935 contra o governo Vargas, em São Paulo. A luta foi esmagada com brutalidade selvagem. Prestes perdeu a mulher, Olga Benário, mandada a um capo de concentração nazista, na Alemanha. Toda a cúpula do Partido Comunista foi jogada em masmorras por uma década. Alberto foi mandado para o presídio político da Vila Maria Zélia, na zona leste da cidade, onde foi selvagemente torturado.
Logo nos primeiros dias de cárcere, foi atacado por trás, por um carcereiro, com uma coronha de fuzil na base da coluna cervical. Desmaiou. Quando acordou, estava jogado em um porão, inundado até os joelhos. À noite baixavam o nível da água, para que pudesse dormir. As refeições resumiam-se a pedaços de pão atirados no líquido onde também eram feitas todas as necessidades.
O rapaz de Itapira saiu de lá, um mês depois, mais morto do que vivo. A marca em seu corpo foi terrível. Não tinha mais o movimento das pernas.
Alberto jamais se arrependeu da luta ou de suas ações. Ao contrário, continuou na ativa. Veio para Bauru, onde se casou e aprendeu as artes e ofícios de trabalhar o couro. À noite era secretário de finanças do comitê regional do PCB.
Após o golpe de 1964, a perseguição aos comunistas fez com que perdesse contato com vários companheiros. Mesmo assim, um rádio de ondas curtas o mantinha informado dos ares do mundo. E a avidez de leitura o fazia percorrer as páginas de Darwin, Hegel, Marx, Lênin, Florestan Fernandes e o que havia de melhor nas ciências sociais e políticas. Aos amigos pedia sempre mais e mais livros.
Seu Alberto morreu no início de 1991. Não acreditava em vida após a morte e nas peripécias da metafísica. Mas o velho inconformado segue vivo, vivíssimo. Um pouco dele está no coração de todo aquele que não se conforma com a vida como ela é.

[1] Jornalista, historiador, pesquisador do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e autor de A Venezuela que se inventa, poder petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Ed. Perseu Abramo, 2004)

28 de ago. de 2008

29º ANIVERSÁRIO DA LEI DE ANISTIA.

Depois de quinze anos de regime militar, onde o arbítrio e a prepotência preponderaram, em 28 de Agôsto de 1979, o Congresso Nacional aprovava a lei de Anistia Política, possibilitando a abertura das prisões políticas e o retorno dos brasileiros que estavam exilados ou banidos do território nacional.
E não eram poucos!
Por diversas razões, brasileiros encontravam-se encarcerados. Delamare Machado da Silva, que morou em nossa Bauru por inúmeros anos, foi preso e condenado com base na Lei de Segurança Nacional por montar o Comitê de Solidariedade Revolucionária, com o intuito de organizar uma rede de apoio aos presos políticos. Ricardo Zarattini Filho por ousar retornar clandestino e atuar politicamente contra o regime militar, depois de ter sido trocado com o embaixador norte-americano. Aldo Arantes, por insistir em manter organizado o PcdoB. Pelos mesmos motivos, milhares de brasileiros encontravam-se no exterior, impedidos de retornarem para a pátria, dentre eles, o falecido José Ivan Gibin de Matos e o sargento Darcy Rodrigues, companheiro de armas e de luta do saudoso Capitão Carlos Lamarca.
Com a Lei de Anistia aprovada, paulatinamente, os brasileiros que se encontravam alijados da vida em comunidade foram retornando, saindo das prisões ou da clandestinidade, como no caso do bauruense adotivo, José Duarte.
Decorridos 29 anos da sua aprovação a Lei de Anistia ainda não foi cumprida em sua plenitude e aqueles que perderam seus empregos por motivação política ainda lutam para reavê-los, em processos intermináveis no Ministério da Justiça. Quando conseguem a vitória, ainda são obrigados a ouvirem que irão receber indenizações milionárias, quando na realidade, estão recebendo salários atrasados e sendo solapados em mais de vinte anos de direitos trabalhistas. Afinal, o governo somente paga os atrasados referente aos cinco anos anteriores a solicitação de anistia. O anistiando adentrou com o pedido em 2002, logo depois da aprovação da Lei, terá direito aos atrasados de 1997 em diante, não se considerando o período entre 1964 até esta data. Os familiares de mortos e desaparecidos continuam na luta, na busca constante e sem sucesso de localizarem os restos mortais de seus entes queridos, entre eles, os dos bauruenses, Jaime e Lúcio Petit da Silva.
Hoje, juristas de todo o Brasil clamam pela punição aos torturadores que atuaram durante o regime militar e vozes levantam-se afirmando que a anistia foi para ambas às partes envolvidas.
Não, não foi, mesmo porque a tortura é considerada como crime imprescritível e não poderiam ter sido anistiados, aqueles que torturaram. Na realidade, a tortura é um verdadeiro crime de lesa humanidade com a agravante de ter sido largamente praticada em nossa Pátria com a finalidade de reprimir o chamado “crime de opinião”.
Aqueles que continuam com seus processos de anistia sendo analisados no Ministério da Justiça, esperam de forma paciente a resolução de seus litígios e hoje, em idade avançada, esperam poder morrer da mesma forma com que viveram, ou seja, com dignidade.
Neste 28 de Agôsto, no Memorial da Resistência, localizado no antigo prédio do DOPS em São Paulo, o Fórum Permanente dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo estará realizando evento durante todo o período da tarde para relembrar os anos de chumbo no Brasil e no período da manhã, às 11:30 horas, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, um grupo de renomados juristas estará lançando um manifesto, onde defendem a punição dos torturadores e sua responsabilização pelo pagamento pecuniário devido as suas vitimas.
Lá estaremos, com orgulho.